O encontro: Brasil na Cerâmica

Nascemos em 2005 depois da expedição “Saberes do Brasil”, que Gisele Gandolfi fez pelos quatro cantos do país junto com a chef Ana Luiza Trajano. Durante a longa viagem pelo país, a ceramista enriqueceu um repertorio bem peculiar: por cada mercado e restaurante que passava, ou casa que dormia, notava atentamente os utensílios de cozinha e costumes regionais, como as cabaças que faziam as vezes de cumbucas e copos em Acopiara, no Ceará, as cuias de tacacá de Belém do Pará e as cestarias Yanomamis que acomodavam frutas típicas.

Inspirações que se põe à mesa: costumes e utensílios nacionais, formas orgânicas da natureza

Ao voltar da expedição, se sentindo mais brasileira do que nunca, Gisele percebeu que homenagear objetos do cotidiano popular e transformá-los em peças autorais seria um dos pilares do Muriqui. “Se alguma coisa fica esquecida no tempo, ela vira folclore, mas se ela se renova, se mantém viva”, comenta a artista, que gosta de contar aos mais jovens como alguns desses utilitários eram usados antigamente, caso do candeeiro que converteu em um charmoso azeiteiro.

Fomos um dos pioneiros na especialização de utilitários de cerâmica para a gastronomia, desde o início atendendo às demandas de chefs com peças concebidas a quatro mãos para a experiência gastronômica contar uma história específica dentro do conceito de cada chef. Para o extinto restaurante Brasil A Gosto, por exemplo, criamos uma marmita com base na clássica de latão dos boias frias. Parte do nosso portfólio é consequência ainda da observação do design simples e orgânico das formas da natureza, como a aperetiveira em formato de abóbora e a tigela de cacau, para citar alguns clássicos.

 

Identidade das peças: a ação do tempo e das forças                                                                                                                             

Nosso caráter é investigativo e dinâmico. A cada abertura de forno, o ciclo se reinicia com a graça e irreverência inerentes aos ciclos da natureza. Transformar a argila em cerâmica é um processo que exige comprometimento, repetição e observação. Um trabalho que acontece em fina sintonia com o barro. No atelier, ele flerta com seus limites e incorpora suas potencialidades quando encontra o fogo. Para chegar a tal resultado, selecionamos o barro, desenvolvemos os  nossos próprios esmaltes crus a partir de minérios e óxidos e executamos sistematicamente uma queima de alta temperatura (cone 10) a gás em atmosfera de redução de oxigênio. Esta composição que une técnica e poética potencializa tons, texturas e efeitos bastante identitários.

 Interagir em conjunto com “as forças”, no devido tempo e grau de intensidade, seja durante a queima, secagem das peças, colagem, modelagem e concepção são a nossa grande virtude. O conjunto da obra traz simplicidade, imperfeição, organicidade da forma, textura e acabamento naturais.

​Conceito