Minha relação com o barro vem de raiz. Cresci no sítio da minha família em Ibiúna, interior de São Paulo, fazendo guerrinha de argila com meus primos à beira da represa Itupararanga e escorregando nos barrancos de caulim. Meu encontro com a cerâmica aconteceu somente aos 26 anos, num sabático pela Itália, quando fiz diversos cursos de arte e produzi minhas primeiras peças. Em Florença, conheci a chef Ana Luiza Trajano e juntas, já de volta, partimos para a expedição Saberes do Brasil, que percorreu todas as regiões do país. Durante os 6 meses de viagem, observei particularmente as cozinhas, costumes e utensílios locais. Fiquei íntima de cabaças, moringas, cuias, cestarias e purungos. 

Depois deste mergulho profundo, voltei “sacudida” e mais brasileira do que nunca. Dizem por ai que a cerâmica escolhe os seus. Eu vibro por ter sido acometida não só pelo fazer cerâmico mas, também, pela brasilidade de toda a linguagem. Sinto que pela vida, as ideias me encontram. E eu me aproprio delas através da manualidade. Mão, cabeça e coração.

Homenagear objetos do cotidiano popular e transformá-los em peças autorais de cerâmica foram então o começo de meu caminho criativo. Sou filha de um químico com uma geógrafa, tenho compulsão em fazer experiências e de observar o design simples e orgânico de formas da natureza, como sementes, frutas e vegetais. Meu caráter investigativo me faz reparar incansavelmente nas texturas, ação do tempo sobre a matéria que pesquiso. Troncos, folhas, pedras, paredes, peles… podem ser referências na busca para fazer o melhor uso da minha matéria expressiva: o barro sob a ação do fogo. Da concepção à queima, passando pela modelagem, secagem e colagem das peças, me faço presente em todo o  processo do atelier. Tenho apreço pelas transformações fisico-quimicas do processo de fazer cerâmica e pela ciclicidade sistemática do ritmo de nossa produção.

Gisele Gandolfi

Ceramista